sexta-feira, 4 de março de 2011

QUE VENTO É ESTE?

Que vento forte é este
que assobia na minha janela
balançando as cortinas
e também as arandelas?
É o vento que vem do Sul?
É o vento vindo do Norte?
Não sei, não sei qual o mais forte.

É o “vento vagabundo” do poeta Cruz e Sousa?
É o vento “que assanha os cabelos da morena”?
É o vento da Primavera levando a chuva para bem longe;
lá onde o rio se encrespa fundindo-se ao mar.
Vento que levanta as ondas para os jovens irem surfar.
Vento que empurra a onda  na areia
e a leva de volta num incessante vai e vem.

Afinal, é sempre o mesmo vento
que sopra na minha janela
que levanta a saia
que assanha os cabelos
que arrepia o corpo?

O vento que chega, quando furioso
destelha casas
derruba árvores
amedronta aqueles que acreditam ser a fúria divina.

Mas, quando vem de mansinho
seca as roupas no varal
abraça as árvores
faz a criança sorrir.

É o vento bom
seja ele do Sul
seja ele do Norte.

Parafraseando Fernando Pessoa:
“Às vezes ouço passar o vento
e só de ouvir o vento passar,
vale a pena ter nascido”.
Maura Soares
Iniciado em 21.9.2000 e finalizado em 24.9.2000, às 15 horas.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Amamos o mar da nossa Ilha, Emanuel e eu. Todas as semanas, pelo menos um dia o visito e contemplo o Cambirela, o Morro do Gigante. Olho ao longe o horizonte, como diz o amado poeta Alzemiro Vieira. Apreciem mais um poema do amado amigo Emanuel.


 HOMEM DIANTE DO MAR  
 Emanuel Medeiros Vieira
                               
 Homem diante do mar
 (instância interrogativa).
 Precária caravela. 
 E finita: a vida
                                
 Trapiche:
 o homem só contempla
 (desembarcado).

No estatuto da memória:                                 
ele se interroga.
 (Nunca mais a ação.)

No porto: a rapariga rosada estendeu o lenço.
Limo: foram-se a juventude, trapiche, rapariga,
lenço.
                                 
 (Mátria: sou apenas um homem diante do mar.)

Desterro?
O instante convertido em sempre?

O homem desembarcado só pode viver de memória:
diante do mar.       

A propósito do Carnaval, os amados, o António e a Carmo, poetas portugueses, apresentam o tema que, com satisfação, posto para todos apreciarem.


“CARNE VALE” *
Carmo Vasconcelos
  
Me enlaçaste, demónio mascarado,
Na rubra pantomina, exuberante,
E eu de anjinha, no traje alvo, enluarado,
Segui-te numa dança fascinante.

Inventámos um louco carnaval,
Em data desfasada, ambos sem tento,
Que, tal cometa em viagem orbital,
Teve a breve medida de um momento.

Em fogueira de penas nos deitámos,
Traje posto, ajustada a mascarilha,
E cegos de porvires nos queimámos
Nesse lume atiçado de armadilha.

Hoje, extinta a paixão de carnaval,
Semelhante a comédia do burlesco,
Dançam as cinzas um negro ritual,
Em memória do rubro amor dantesco!

***
“Carne Vale” ou “Adeus à Carne”– origem etimológica da palavra “Carnaval” – Séc.XI
Lisboa/Portugal
24/Janº/2010

Carnaval
António Barroso (Tiago)

Nos carnavais da vida, que eu vivi,
andei rindo, bailando, em todo o lado,
com o coração sempre apaixonado,
por amor, tantas vezes, me perdi.

Carnaval, como podes ser tão louco,
sempre eivado de sonho e fantasia,
vivendo tantos dias num só dia,
deixando a sensação que foi tão pouco. 

Fica, então, carregado o pensamento,
de tantos amores havidos, nessa hora,
novos surgiam, outros indo embora,
paixões que nascem, morrem, num momento.

O carnaval terminou, resta a história
de máscaras, confetis, de ilusões,
só resta atar, com fita, as emoções,
e guardá-las no cofre da memória.

Parede - Portugal  (03-03-2011)

Amigos, cá está o Eugénio de Sá com mais um soneto.







 Sem sonho, a vida é morrer!
Eugénio de Sá
  

Sem sonho a alma levita no limbo da indiferença
Sem sonho, a gente definha, perdidos, sem atinar
Como esta vida levar, levados pela descrença
Já que, sem a fantasia, só andamos a penar... 

E depois cala e desiste, que a desistência de amar
É da vida o desgostar, e a razão não subsiste;
Torna o que amamos tão triste, tão dificil de gostar,
Que em nós a falta de amar é morte que já existe! 

Sem sonhos e sem amor, pouco da vida  nos resta
 E a valia de viver que fique plo padecer
Já que pouco nos importa que se finde a nossa gesta 

Mas se a luz volta a brilhar e que volte a acontecer
Que o sonho venha a assomar a uma pequena fresta,
Volta-nos a côr ao rosto, a côr que lhe queremos ver!

Como este espaço também é dedicado aos amigos, eis mais um amigo, desta feita nativo de Portugal, que se integra. Com carinho, postaremos, vez ou outra, trabalhos dele.


O REGISTO DO TEMPO(*)
Eugénio de Sá (**)

  
E tu, que te vestes de vencedor
e te sentas, orgulhoso, na cadeira do tempo;
- sorri-te hoje no rosto o olhar triunfante
outrora alapado aos ponteiros do relógio.
Não consideres, sobranceiro,
este vitorioso mas fugaz momento
como o alcance da eternidade.
A tua egocêntrica apoteose
não te confere a imortalidade.
O tempo, esse, não passou por ti;
- tu é que passaste dentro dele,
numa relação tão insignificante
como a de um minúsculo grão de areia
que se esgueira ao sopro da mais ligeira brisa
p’lo tronco derrubado, inútil e vazio
de um carvalho ancestral.
Tu só serás, realmente, grande
se souberes aproveitar bem o teu tempo.
O registo desse tempo pouco conta
se teus os objectivos forem mesquinhos.
P’lo contrário;
quanto maior for a tua disponibilidade
para com o teu semelhante
tanto maior será a verdadeira e perene riqueza
da tua humanidade espiritual.
Quanto mais tolerante e solidária for a tua acção,
tanto mais tu vivenciarás, no teu pequeno espaço,
o registo do tempo.
E nele ficará, então, indelevelmente marcada
a tua breve passagem nesta vida.

(*) no Brasil, leia-se “registro”.
(**) Poeta português, o mais novo amigo que está, a partir de agora, colaborando com seus trabalhos, neste blog. Sê bem vindo, Eugénio.

terça-feira, 1 de março de 2011

Aqui, o meu amado amigo Emanuel Medeiros Vieira, filho também da minha Ilha de Santa Catarina, aparece com seu Romaria, o seu desejo para o rito de passagem, para o local onde todos vamos, um dia.

ROMARIA (NO TERRITÓRIO DOS AFETOS)
(Carta para Lucas, Clarice, Célia, Maurício e Américo)
Uma missiva sentimental demais
Emanuel Medeiros Vieira

“Só uma palavra me devora: aquela que o meu coração não diz”
                    (Suely Costa)         
Não reparem: é romaria interior,
 fragmentada carta não postada,
 pobre  prosa poética,
tosco hino de amor,
sentimental demais,
ouvindo Elis Regina
(ela também nasceu em 1945)
e Renato Teixeira.

Peço que toquem “Romaria” no dia da minha partida – hora de descer aos sete palmos.
(Queria também outras duas músicas, mas não é de bom dar muito trabalho nessa hora.)
Se algo ficar na retina de vocês, será na riqueza de alguma recordação,
somos  criaturas da memória,
finitos continuamos sendo,
um dia, estaremos unidos numa coisa só: pó, estrume, rio, mar, fundidos nesse cosmos.

Nessa carta, eu queria informar –
quando  eu for embora, se quiserem me “ver”, indico três locais:
A servidão que leva à casa azul e branca da Lagoinha
(havia um pé de pitanga), na minha mítica Desterro (não a cidade desfigurada de hoje), a Ilha em que nasci.
O segundo local: o Parque da Cidade, ou na entrada da SQS 114, em Brasília – no pilotis do meu bloco, onde peguei o Lucas no colo,  ele só tinha poucos meses de vida, eu saía do hospital, mas a infecção ainda estava no meu corpo, vieram recidivas, mas isso agora não importa, a grama estava seca, comecei a chorar, e fui tomar um cafezinho com rosquinha  na padaria, pois havia “sobrevivido” contra a previsão dos médicos (haviam me dado só dois dias de vida), já  tendo recebido a unção dos enfermos por três vezes.
O tom parece piegas? É.
Me  perdoem.
Estava escutando também “Jesus Alegria dos Homens”, de Bach, e “Yesterday”.
São as três músicas que, afetivamente, mais me tocam nesse dia de hoje, no mês em que, se me for permitido, completarei 66 anos.
Hoje, no primeiro dia do mês de março de 2011, não consigo escrever de outra forma.
Há muito gestava o texto.
Já fizera vários rascunhos.
A morte? Passagem.
O tempo – que antes me atormentava – está mais serenado no meu coração.
Ele – segundo o meu saudoso amigo Caio Fernando Abreu –, é um orixá que não incorpora porque humano algum suportaria o seu peso.

Insisto (antes de dar os trâmites por findos), olhando bem, você me enxergarão “além de mim”.
O terceiro lugar no qual vocês me “verão”, será aqui em Salvador, na Praça Castro Alves, um local maravilhoso, onde amo contemplar a Baía-de-Todos-os Santos.
Se Ele Existir, foi um dos locais em que cheguei muito perto Dele.

E agora anoitece.

A raiz do meu amor por vocês é irrevogável –
vai  comigo à eternidade.

Nos três locais, vocês me verão, sim, me enxergarão além do esquecimento, além desta breve passagem, além de mim, além da vida, além do pó do que serei.
Sim, me verão – estrela, semente, ou bússola em busca de um oceano maior.
(E ensinem para os seus filhos: é nosso dever reconhecer o mérito de quem cumpre a vida.)
(Salvador, fevereiro de 2011)



UM TEMPO PARA DEPOIS
Ficou para depois, não sei quando,
o nosso tempo.
Ficou para quando desse,
o nosso encontro.
Ficou adiado o amor tão sonhado...
Ficou como tantas coisas ditas ao pé do ouvido pela manhã,
à tarde e à noite
e também em tantas cartas enviadas e recebidas.
Ficou o nosso tempo para depois
quando um dos dois pudesse ir ao encontro
e revelar o quanto de saudade estava em cada coração;
o quanto o amor ainda estava guardado prestes a aflorar;
prestes a dar vazão;
prestes a aconchegar.
Ficou para depois
a vida tão deliciosamente vivida
nas palavras,
nos beijos,
nos desejos sonhados e não saciados.
Um tempo que só o tempo dirá.
Ficou sempre sendo adiado
este tempo para nós dois.
Será que o tempo dirá?
Maura Soares, aos 01 de março de 2011, 04.00h, madrugada (horário de Brasília)