sexta-feira, 15 de abril de 2011

Chega com um texto inspirado em um ser passante, emoldurando este Blog. Adriana da Silva Moreira, forte, de personalidade, adiante do seu tempo. Benvinda, amiga.

FORMAS DE VIVER

Na forma humana, um trapo de gente caminha
pelas ruas, sem rumo e sem identidade.
De repente, em algum lugar, há alguém chorando
por sua ausência.
É como se tentasse ser outra pessoa para
se esquecer do passado...
Dificuldades, fome, desprezo, somando as
desilusões que todos temos
que ter para o crescimento espiritual.
Fraqueja, foge de seu mundo real, adquire
uma nova forma, uma diferente identidade,
talvez sofra menos lá fora
do que presa em seus pensamentos.
Em seu olhar não há nada; é vago.
Formas de se viver, equilíbrio e desequilíbrio.
Opções, escolhas em algum determinado ponto da vida.
Destrói-se uma casa e começa-se a construir outra.
Quem está sempre certo?
Todos nós temos o dever de arriscar, mudar,
fazer e desfazer,
amar e odiar, crescer, SER, se conhecer,
fazer coisas novas, diferentes.
Ter coragem, pois poucos  fazem valer.
Aprender com o belo e com o diferente olhar de beleza.
Ver além das aparências.
Ser quem se quer.
SER, naquele exato momento.
ADRIANA DA SILVA MOREIRA
26 de março de 2011

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Homem de múltiplos talentos, Plinio Marcos figura neste espaço. Ator, poeta, escritor, dramaturgo, soube ousar em seu tempo e deixou para a posteridade uma obra fantástica, inigualável.

O ATOR

PLINIO MARCOS

Por mais que as cruentas e inglórias
Batalhas do cotidiano
Tornem um homem duro ou cínico
O suficiente para fazê-lo indiferente
Às desgraças e alegrias coletivas,
Sempre haverá no seu coração,
Por minúsculo que seja,
Um recanto suave
Onde ele guarda ecos dos sons
De algum momento de amor já vivido.
Bendito seja
Quem souber dirigir-se
A esse homem
Que se deixou endurecer,
De forma a atingi-lo
No pequeno porém macio
Núcleo da sua sensibilidade.
E por aí despertá-lo,
Tirá-lo da apatia,
Essa grotesca
Forma de auto-destruição
A que por desencanto
Ou medo se sujeita.
E por aí inquietá-lo
E comovê-lo para
As lutas comuns da libertação.
O ator tem esse dom.
Ele tem o talento de atingir as pessoas
Nos pontos onde não existem defesas.
O ator, não o autor ou o diretor,
Tem esse dom.
Por isso o artista do teatro é o ator.
O público vai ao teatro por causa dele.
O autor e o diretor só são bons na medida
Em que dão margem a grandes interpretações.

Mas o ator deve se conscientizar
De que é um cristo da humanidade:
Seu talento é muito mais
Uma condenação do que uma dádiva.
Ele tem que saber que para ser
Um ator de verdade, vai ter que fazer
Mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios.
É preciso coragem,
Muita humildade e, sobretudo,
Um transbordamento de amor fraterno
Para abdicar da própria personalidade
Em favor de seus personagens,
Com a única intenção de fazer
A sociedade entender
Que o ser humano não tem
Instintos e sensibilidades padronizados,
Como pretendem os hipócritas
Com seus códigos de ética.
Amo o ator
Nas suas alucinantes variações de humor,
Nas suas crises de euforia ou depressão.
Amo o ator no desespero de sua insegurança,
Quando ele, como viajor solitário,
Sem a bússola da fé ou da ideologia,
É obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente
Procurando, no seu mais secreto íntimo,
Afinidades com as distorções de caráter
De seu personagem.
Amo o ator
Mais ainda quando,
Depois de tantos martírios,
Surge no palco com segurança,
Oferecendo seu corpo, sua voz,
Sua alma, sua sensibilidade
Para expor, sem nenhuma reserva,
Toda a fragilidade do ser humano
Reprimido, violentado.
Amo o ator por se emprestar inteiro
Para expor à platéia
Os aleijões da alma humana,
Com a única finalidade
De que o público
Se compreenda, se fortaleça
E caminhe no rumo
De um mundo melhor,
A ser construído
Pela harmonia e pelo amor.
Amo o ator
Consciente de que
A recompensa possível
Não é o dinheiro, nem o aplauso,
Mas a esperança de poder
Rir todos os risos
E chorar todos os prantos.
Amo o ator consciente de que,
No palco, cada palavra
E cada gesto são efêmeros,
Pois nada registra nem documenta
Sua grandeza.
Amo o ator e por ele amo o teatro.
Sei que é por ele que
O teatro é eterno
E jamais será superado
Por qualquer arte que
Se valha da técnica mecânica.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Mais um amigo a compor a galeria neste blog. Falo de Jorge Maciel, de Santos,SP, cantor, compositor, violonista. Sê bem vindo, Jorge!

E O CARTOLA PARTIU, de Jorge Maciel
Jorge canta com Guiomar Szabo
CD “Madrugada”

Chegou sua vez, Cartola amigo
do samba Brasil
As rosas não falam,
mas vi que choraram quando você partiu
Chegou sua vez
O céu está em festa
e o morro está triste
Nos resta a saudade
Nos resta seus sambas
sem seu violão
E hoje não só a Mangueira
chora sua morte
no sul ou no norte
O samba sentindo essa ausência doída
no meio de nós
e assim olhando do alto
seu Rio de Janeiro
fazendo orações
aos sambistas guerreiros
pra manter o seu samba no lugar

O amor acontece quando tem que acontecer. Carinho não se pede, se doa. A seguir.

CARINHO NÃO SE PEDE

Muitos homens tem a doce ilusão que ao pedir um carinho, esteja recebendo sinceridade.
Nas mais das vezes a mulher, se for a companheira, a esposa, a mulher, a dona de casa, lhe retribui para ficar livre do pedido. Não raras vezes ela está é preocupada com as tarefas que tem que desempenhar nas lidas domésticas.
Assim acontece com muitos casais,  sobretudo com aquelas relações já desgastadas pelo tempo de união. Há casais, no entanto, cujo carinho é diário embora o casamento esteja durando mais de 5 décadas. Já observei casais que são uns pombinhos até na terceira idade, pois o que os levou à união não foi a paixão e sim o Amor.
Amor, este sentimento divino que une os corações.
Amor, cantado em prosa e verso, é confundido com relação sexual, no dizer “vamos fazer amor”. Amor não se faz, Amor é, Amor se completa, Amor se conquista com o carinho, com a compreensão, com o perdão.
Principalmente com o perdão, se um deles erra. Há um ditado antigo que diz que quando um dos dois erra, o outro nunca é inocente.
Há que se rever este conceito. Muitas vezes o homem tem a expectativa de que a mulher não mude, que fique igual em sentimento como quando a conheceu. Mas todos mudam nas suas concepções, principalmente quando se segue a evolução do tempo.
Aquele fogo abrasador do início da relação dura, quando não muito, um ano e sete meses, já ouvi um especialista em relações amorosas falar. Procurei investigar e tive a constatação. Paixão, como se diz, dura pouco.
Depois, a paixão, na relação a dois, com o passar do tempo, dá lugar ao verdadeiro Amor, à compreensão, ao carinho, à ajuda mútua, a um querer compartilhar as tristezas, dividir a dor, unir o trabalho, juntar as alegrias, caminhar lado a lado olhando um para o outro e os dois numa mesma direção.
Carinho não se pede, diz o enunciado deste artigo que me vem de inspiração. Tenho presente este preceito que não se deve  mendigar amor. Quem quiser mendigar “amor” há casas e pessoas especialistas para satisfazer esta expectativa.
Nada como o dia a dia para inflamar um relacionamento.
A vida nas grandes cidades requer das pessoas a paciência, a calma, mas é coisa um tanto difícil de o homem ou a mulher que tem que enfrentar um trânsito confuso, chefes de mau-humor, intempéries, enfim, uma gama de fatores que só com muita, muita paciência mesmo, o individuo chega ao final do dia agradecendo a Deus pelo trabalho desenvolvido e o que mais deseja é chegar em casa, assistir um bom programa na TV ou ficar quieto ouvindo música, tendo o seu jantar e o carinho da pessoa amada.
Porém quando o homem chega em casa após um dia em que tudo pareceu ter dado errado, -  na sua concepção, claro - ,  chega e encontra a cara-metade com cara azeda e nem pergunta “como foi seu dia”, quando a expectativa era outra, o sentimento de frustração aflora e pode até acontecer uma discussão sem necessidade.
Aí é que o Amor é posto à prova. Aí é que reside o companheirismo, o afeto, o desejo de compartilhar.
Há uma frase que diz “eu não posso resolver o teu problema, mas quero ficar ao teu lado e chorar contigo”.
Esta é a verdadeira afeição. Cada qual tem o seu quinhão de cargas a suportar. Deus nunca dá uma carga maior pra ninguém, somente até o limite do suportável.
Que ninguém esbraveje, que todos até agradeçam as dificuldades, pois são através delas que o homem evolui se souber como tratá-las, se souber fazer a leitura de que se está recebendo um contratempo, esta dificuldade tem sua razão de ser.
A cada qual segundo suas obras, diz o preceito divino.
Ninguém pode culpar os outros de suas desditas. Nós somos responsáveis por tudo o que fazemos, desde o levantar da cama pela manhã até o findar do dia, quando as tarefas foram cumpridas, quando o individuo contribuiu de alguma forma para a sua elevação espiritual.
Ninguém deve mendigar amor, repito, isto se conquista em sendo bom, em sendo compreensivo, em sendo honesto, em sendo trabalhador, em não trair seu companheiro de trabalho, em ser fiel aos seus sentimentos para com a pessoa amada, em procurar através do estudo, da leitura de bons livros, o conhecimento intelectual na escalada da evolução.
Amor é isso, é dar e receber. Não se atiram pérolas aos porcos, pois eles não saberão o que fazer com elas. Não se deve dar somente coisas materiais aos seus filhos, aos seus esposos e esposas, pois se você não der um minuto de sua atenção até numa simples pergunta, tudo o que você deu de material cai por terra.
Amar é entender. Amar é, sobretudo, perdoar todas as faltas e, no passar do tempo fazer com que a pessoa amada se sinta rejuvenecida a cada dia com o seu carinho e a sua compreensão.
Amar o Amor. Esta é a Lei.
Maura Soares, aos 23 de fevereiro de 2011, 15.00h.             

domingo, 10 de abril de 2011

MOMENTO
Não me diga que um dia
retornaremos,
pois o momento é agora.
Ou o amor decide acontecer
ou se cala para sempre
ou fica num canto do coração.
Momentos de arroubos
acontecem e os corpos se unem
no calor da paixão.
O amor, no entanto,
tem o momento certo para acontecer
e permanece quando é verdadeiro.
A indecisão nos leva a acreditar
ou a suspeitar que o amor não é verdadeiro
ou, mais ainda,
que poderá trazer sofrimento.
Os poetas dizem que o  amor faz sofrer.
Pode ser, pois estou sentindo a dor agora
quando dizes para esperar o momento.
Sei no meu coração que o nosso momento
de amar é agora.
Se achas que não,
então...
não será mais para nós dois.
Maura Soares, aos 27 de março de 2011, 08.00h

domingo, 3 de abril de 2011

         ERRANTE

            Estou cansado desta vida de errante.
            Vivi de Seca a Meca por longos anos, sem fincar raízes.
            Procurei em outros lugares o que não achava dentro de mim.
            Até que uns olhos cor de violeta me disseram “fica” e eu estou ficando sem pegar malas, passaportes...trens.
            Os olhos cor de violeta certa ocasião suplicaram “não posso ir contigo e morro se não te abraçar pela manhã”.
            Fui ficando, fui abraçando pela manhã, fui deixando a vida errante...
            Meu coração e minha privilegiada mente de escritor, de cronista dos mundos visitados, tal  qual Albert Camus em “Bodas em Tipasa”,  tentaram se soltar, mas desta vez parei, olhei fundo nos olhos cor de violeta e achei melhor, então, ficar e colocar meus pés definitivamente nesta terra abençoada que embora com os seus desmandos, suas corrupções, com tanta gente sem lar, sem escola, sem alimento, seu povo ainda pode baixar a cabeça em sinal de contrição e elevar os olhos aos céus em sinal de oração buscando, no azul do infinito, a paz tão sonhada sabendo que lá do alto sempre vem algo ou alguém em nosso auxílio, aliviando nossos temores, dando alento às nossas dores.
            E os olhos cor de violeta que, com seus abraços ternos me acarinham todas as manhãs, impediram-me de alçar voo e ficar onde não há guerra, onde a fome é saciada com a solidariedade, onde apesar de tudo o que o povo faz com a natureza, embora ela se rebele e envie suas catástrofes, apesar de tudo isso, ainda é um povo feliz.
            Então, fico, pois estou cansado de lutar comigo mesmo, procurando sempre lá fora o que não encontrava dentro de mim e achei, sim, finalmente achei a minha paz nas profundezas de uns olhos cor de violeta.
            Maura Soares
            Aos 02 de abril de 2011, 08.25h


sexta-feira, 1 de abril de 2011

O livro que me inspirou esta crônica--capa ao lado- está sendo vendido pelo site agbook. O autor, Edweine Loureiro mora em Tokyo e está, com a venda, ajudando as vítimas de seu país de adoção. Comprei o livro e, podem crer, estou amando.

PARAQUEDAS

            Solto no ar, o paraquedas.
            Preso às suas cordas, o homem.
            Ao ver o chão se aproximar, sente um frio na espinha.
            O alvo marcado com um círculo vermelho, mais e mais visível.
            Decidira naquele dia fazer o voo, digamos assim, inaugurando o novo paraquedas todo equipado; no capacete uma câmera acoplada para filmar tudo e depois poder enviar a amigos e relatar a experiência.
            Solto no ar, na sua “queda” solitária, sentiu como a vida é efêmera; solto no ar viu-se qual menino no galho da árvore do quintal de sua infância e pediu para alguém tirá-lo de lá; sentiu novamente as lágrimas rolarem por sua face a clamar pela mãe ou pelo pai.
            No dia a mãe, aflita, pedindo que se acalmasse; o pai ameaçando bater-lhe pela ousadia em subir sozinho num galho tão alto, sem alguém por perto para ajudá-lo a descer.
            E o menino preso ao galho ao ver o chão tão longe, conseguir após a colocação de uma escada, descer da árvore na qual sua ousadia poderia ter saído caro.
            Agora ali estava ele, solto no ar, mais uma vez, só que desta vez não estava a mãe aflita e o pai severo e nem a escada para colocar os pés.
            O chão mais e mais perto.
            Perdido em suas divagações, o homem sentiu a situação, a realidade e deu-se conta de que tudo em sua vida ficara suspenso no ar; tudo dependia de sua decisão em fincar os pés, em criar raízes, coisa que não se atinha com muito esforço.
            Agora, ali o alvo para ele cair dobrando primeiro os joelhos por causa do impacto; as mãos firmes a direcionar as cordas do paraquedas; o vento  que começava a mudar de direção a impulsioná-lo fora do círculo.
            A decisão mais uma vez estava com ele: havia subido no ar por conta própria, tal qual no galho da árvore, agora teria que descer sem a escada, só com o foco no alvo, decidido a cumprir a meta.
            Despertou do devaneio. O chão apareceu como num segundo.
            Fincou definitivamente os pés no chão. Caiu decididamente onde havia programado: o centro do circulo vermelho.
            A partir daí havia finalmente decidido a sua vida.
            Maura Soares
            Aos 01 de abril de 2011, 07.30h, crônica inspirada na capa do livro “Clandestinos”, de Edweine Loureiro.